Integrantes de comunidade indígena de Alagoas visitam a CATI

 

Membros do Grupo Sabuká, da comunidade indígena Kariri-Xocó, do município de Porto Real do Colégio, do Estado de Alagoas, visitaram, no dia 10 de maio, a sede, em Campinas, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, para conhecer o trabalho com sementes e mudas.

Produtores de milho, feijão, mandioca e plantas medicinais para subsistência, os indígenas estiveram na instituição interessados em conhecer o Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes (DSMM) da CATI, que produz e comercializa sementes e mudas com garantia de qualidade genética, fisiológica e sanitária.

O grupo foi recebido pelo diretor do DSMM, Ricardo Lorenzini, que falou sobre o trabalho da unidade e da extensão rural e destacou a expectativa de fomentar transferência de conhecimentos produzidos por nossa rede técnica. “Receber os integrantes dessa comunidade foi muito gratificante, pois demonstra que as ações e os projetos desenvolvidos pela instituição na área de sementes ultrapassam as fronteiras do Estado de São Paulo”, avaliou o diretor.

O diretor do DSMM destacou que as sementes de milho que serão fornecidas para a comunidade fazem parte de um lote do Núcleo de Produção de Sementes de Paraguaçu Paulista que tem recebido tratamento natural contra insetos. “Desde 2014, temos testado a Terra Diatomácia, produto mineral totalmente natural, para o tratamento de sementes. Os resultados têm sido excelentes”, disse, informando que o contato com a comunidade Kariri será mantido para fazer um acompanhamento do plantio das sementes produzidas pela CATI. “Além disso, queremos que novas parcerias surjam para multiplicar sementes crioulas, como já foi feito com uma comunidade indígena de São Paulo”, complementou o engenheiro agrônomo, referindo-se à multiplicação de sementes de milho crioulo, que foram recuperadas de sua quase extinção. “Esse material genético coletado das aldeias de etnia Kaingang, das regiões de Bauru e Araçatuba, foi multiplicado pela equipe técnica do setor de melhoramento genético do Núcleo de Produção de Sementes Ataliba Leonel, em Manduri, e entregues para a Fundação Nacional do Índio (Funai)”, explica Ricardo.

                      


O técnico da Secretaria, que atua na CATI e é responsável pelo Núcleo, Márcio Mondini, atestou que as sementes tratadas com a Terra Diatomácia tiveram ganho no tempo de prateleira, custo mais baixo na produção e, ainda, têm a vantagem de poder ser consumidas, tanto para uso animal quanto humano, quando não germinam mais, o que não ocorre com as tratadas com produtos químicos.

Líder do grupo, o cacique Pawanã Crody se mostrou muito satisfeito com a visita e com o compromisso firmado com os técnicos da CATI. Para ele, a visita foi uma experiência produtiva, pois além de informações importantes e acesso a sementes de qualidade, a Coordenadoria auxiliará na implantação de uma produção agrícola sustentável. “Nosso povo tem padecido com doenças como diabetes, derrame e outras, por se alimentar de forma errada, com muitas comidas industrializadas e produzidas com agrotóxicos. Por isso, nossa pequena produção é orgânica, mas precisamos aumentá-la para poder alimentar a todos e, futuramente, até pensar em uma produção maior para gerar renda. Para isso, o apoio técnico da CATI vai ser muito importante para nós”.

A visita

De acordo com a engenheira agrônoma da Secretaria, que atua na CATI, Maria Paula Domene, o DSMM foi procurado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), que integra uma rede de entidades e universidades que apoiou o grupo de indígenas em um projeto de divulgação de suas tradições e cultura em escolas de várias regiões do País. “Como nosso objetivo não é apenas a comercialização, mas apoiar os produtores com o melhor para o desenvolvimento sustentável de suas áreas, fizemos o convite para a visita e uma reunião com membros do nosso corpo técnico”, informou a engenheira agrônoma.

Ela destacou que é preciso conhecer as comunidades e respeitar as suas tradições, para recomendar as sementes e os tipos de culturas mais adequadas para suas áreas. “É muito bom o fato de as nossas sementes serem variedade, pois são mais rústicas e não agridem sua cultura, visto que não são transgênicas”, disse Maria Paula.

De acordo com a Adriana Gomes de Menezes, professora do Instituto de Economia da Puccamp, que acompanhou o grupo durante a visita, o interesse em conhecer o trabalho da CATI, principalmente na área de sementes e mudas, se deve às ações da instituição que têm repercussão em nível nacional. “Eu conhecia o trabalho da CATI e como sabia da dificuldade deles em obter sementes para plantar, resolvi comprá-las aqui e doar para eles. No entanto, após essa visita, estamos saindo com muito mais que sementes, mas com conhecimento e uma possível parceria que gerará frutos duradouros para essa comunidade”, avaliou.

Além disso, a finalidade também é preservar e difundir o conhecimento das comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas, sobre essas plantas e seu preparo”, disse Maria Paula. A surpresa, durante a visita, ficou por conta de a horta do Projeto contar com um exemplar de major-gomes ou bredo, planta nativa, de disseminação espontânea e rica em nutrientes, a qual é uma das principais consumidas pelos Kariri Xocó.

                      


“Não consumimos tomate e alface como a maioria das pessoas, mas, principalmente, o major- gomes, folha tradicional em nossa cultura. Nunca poderia imaginar que tinha um pé aqui na CATI, pois a maioria das pessoas não conhece”, disse Kaony, integrante do grupo, o qual também ficou muito interessado nas plantas medicinais apresentadas por Maria Cláudia Blanco, agrônoma da CATI, que forneceu a eles publicações sobre o Projeto Farmácia Viva e outras, com temas de interesse da comunidade, editadas pelo Centro de Comunicação Rural.

Os indígenas visitaram o Projeto Fazendinha Feliz, no qual o engenheiro agrônomo Osmar Mosca Diz desenvolve uma ação educacional com plantio de hortaliças não convencionais e mantém uma coleção didática de plantas e sementes de várias regiões do Brasil. “Nosso objetivo é apresentar essas plantas que são extremamente nutritivas, mas não são consumidas por não serem conhecidas”.

Após as conversas, a troca de experiências e os aprendizados, o grupo Sabuká fez uma apresentação de dança e canto, em agradecimento à recepção, abençoando a instituição e celebrando os laços de amizade e cooperação formados. “Voltamos para nossa terra levando bem mais que sementes. Levamos novas amizades e a certeza de darão bons frutos”, falou o cacique na despedida, deixando o convite para que os técnicos visitem a aldeia e possam aprender com eles também.

Um pouco sobre os Kariri Xocó e o grupo Sabuká

De acordo com o cacique Pawanã, a comunidade Kariri-Xocó de Alagoas conta com cerca de 600 famílias (aproximadamente três mil pessoas –, além dessas, existem apenas mais 20 famílias dessa etnia no Brasil, as quais vivem em Brasília).

Elas vivem em uma área de 600 hectares, sendo 100 preservados com uma mata de mais de 300 anos, onde são realizados seus rituais sagrados. Toda a produção agrícola é para subsistência. “Nossa luta tem sido grande para ter a demarcação de toda a nossa área (que pode chegar a cinco mil hectares). Queremos ser autônomos, ter uma produção agrícola e, ao mesmo tempo, reflorestar a área e recuperá-la ambientalmente, pois as terras estão destruídas pela intensa ocupação e exploração que vêm sofrendo. Queremos resgatar nossos rios e matas, pois não estamos mais conseguindo pescar e plantar. Em alguns trechos, nem podemos nadar nos rios”. O cacique revela também que projetos têm sido realizados, com apoio de entidades públicas e privadas, mas alguns não têm avançado e há muito o que fazer para que eles possam ter uma vida mais digna e autossuficiente.

                      


A denominação Kariri-Xocó foi adotada como consequência da mais recente fusão, ocorrida há cerca de 100 anos, entre os Kariri de Porto Real de Colégio e parte dos Xocó, da ilha fluvial sergipana de São Pedro. Estes, quando foram extintas as aldeias indígenas pela política fundiária do Império, tiveram suas terras aforadas e invadidas, indo buscar refúgio junto aos Kariri da outra margem do rio Kariri (ou Kirirí), por outro lado, é um nome recorrente no Nordeste e evoca uma grande nação que teria ocupado boa parte do território dos atuais estados nordestinos desde a Bahia até o Maranhão. As referências a Xocó (ou Ciocó) remontam ao século XVIII.

O grupo Sabuká

Há três anos, o grupo vem realizando trabalhos educacionais, culturais, vivenciais e de divulgação e fortalecimento de sua cultura na região de Campinas e em outras do País, para construção de laços de parceria e troca de conhecimentos estabelecidos entre escolas, grupos e centros culturais, universidades, entre outros. O trabalho do grupo, formado por sete moradores da aldeia, consiste na realização de rodas de conversa, como forma de partilhar sua história, cultura e modos de viver e ver o mundo. Também são realizadas oficinas de pintura corporal de dança e de cantos – denominados Toré – exposição e venda de objetos patrimoniais - artesanatos.

Nesses encontros, crianças, jovens e adultos podem tirar suas dúvidas, vivenciar e aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura Kariri-Xocó e sobre a história e a situação política dos povos indígenas nordestinos.


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