Coopercentral VR: a força do cooperativismo que driblou as barreiras da competição e fortaleceu a agricultura familiar do Vale do Ribeira

A competição, por vezes, pode acarretar desentendimentos entre pessoas, impossibilitando que os indivíduos sejam capazes de praticar o espírito de cooperação. No entanto produtores de organizações rurais do Vale do Ribeira, na região sul do Estado de São Paulo, descobriram na competição uma oportunidade de união, conectando produtores que individualmente são pequenos, para, no conjunto, torná-los fortes. Esse é o caso da Coopercentral VR, em Santo André, que, atualmente, beneficia quase mil famílias de produtores rurais com a união de seis cooperativas e duas associações, todas do Vale do Ribeira, que receberam apoio do Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado. Após a criação da Coopercentral VR, os produtores atendem cerca de 2,4 mil escolas na capital paulista e mais 800 em outras cidades. Além disso, o contrato com a Prefeitura de São Paulo, que era de R$ 1,9 milhão em 2014, saltou para R$ 8,5 milhão neste ano com a entrega referente ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

       

Principal cultura do Vale, a banana preenche cerca de 35 mil hectares do Vale com as variedades nanica (60%) e prata (40%). “A bananicultura é economicamente forte, mas os pequenos agricultores, reunidos cada um em sua associação ou cooperativa, entregavam a produção para os intermediários para que o produto fosse escoado no grande mercado, o que ocasionava prejuízos aos agricultores familiares”, disse Antônio Eduardo Sodrzeieski, o “Mamute”, diretor da CATI Regional Registro, explicando que o Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado, executado pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), viabilizou máquinas e equipamentos para as organizações rurais que, hoje, se reúnem por meio da Coopercentral VR. “A figura do atravessador foi eliminada e os produtores permanecem com o dinheiro que, antes, era pago aos intermediários. Isso melhora a renda do produtor e, consequentemente, a qualidade de vida”, frisou Mamute.

       

Coopercentral VR: a criação

“Quando começamos a trabalhar com as Chamadas Públicas pelo PNAE, nos deparamos com outras organizações rurais do Vale do Ribeira participando e percebemos que havia uma disputa entre nós enquanto cooperativas”, explicou Ederson Ferrigno, presidente da Cooperativa dos Bananicultores de Miracatu (Coobam), que integra a Coopercentral VR.

Rafael de Oliveira, agricultor familiar de Miracatu e atual presidente da Coopercentral VR, afirmou que a ideia da criação da organização rural ocorreu em 2012. “Desde então, amadurecemos o conceito, estudamos modelos de cooperativas que atuam de forma central e a metodologia de trabalho que seria desenvolvida. Foi a necessidade do grupo que fez com que a Coopercentral VR fosse desenhada”, disse Rafael, explicando que a central foi constituída formalmente em abril de 2018. “Em nosso primeiro contrato com a Prefeitura de São Paulo, em 2014, operamos na Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André (Craisa), de forma improvisada. Nessa época, ainda não existia a Coopercentral VR formalmente. Estávamos com três boxes na Craisa, mas o custo era alto. Pagávamos R$ 18 mil por três boxes, sendo que cada um tinha, em média, 90m². À época, faturávamos R$ 1,9 milhão com as vendas institucionais. Atualmente, fora da Craisa, pagamos o mesmo valor em quase 1.000m² e nosso último contrato com a Prefeitura de São Paulo foi de R$ 8,5 milhões”, contou orgulhoso.

O agricultor (e a família) como parte do negócio

“Se as pessoas não se considerarem parte do desafio, nós não conseguiremos fazer com que elas se sintam proprietárias da estrutura e dos resultados obtidos”. A frase é de Gilberto Ota, agricultor familiar e um dos diretores da Coopercentral VR. No local, além de estruturas para colocação paletes, câmaras frias e empilhadeira, há um alojamento e também um refeitório. Na Coopercentral VR trabalham cerca de 25 pessoas, a maioria parentes de produtores que trazem o comprometimento do campo para a cidade.

André Luís de Oliveira, filho de agricultor familiar da Cooperativa Agropecuária de Produtos Sustentáveis do Guapiruvu (Cooperagua), do município de Sete Barras, trabalha na sede da Coopercentral VR auxiliando na colocação de caixas dentro dos caminhões que saem carregados de bananas. “Meus pais são agricultores e, desde pequeno, auxiliei na propriedade. É muito satisfatório trabalhar na central e saber que contribuo para o crescimento dessa organização rural”, disse André.

       

A criação da Coopercentral VR contribuiu, ainda, para a diminuição do êxodo rural, ao passo que o produtor vislumbra melhores condições de vida, como no caso de Anilton João de Moraes, que voltou para o meio rural a convite do pai, João Pedro de Moraes, sendo que ambos integram a Cooperativa da Agricultura Familiar de Sete Barras (Coopafasb), que faz parte da Coopercentral VR. “Depois que terminei o colegial, não havia oportunidades no Vale do Ribeira. Deixei o Vale em busca de melhores condições na Baixada Santista. Fiquei 15 anos por lá, me formei em Administração e cheguei a trabalhar no porto de Santos. Meu pai propôs que eu voltasse e disse que o tempo ruim havia passado”, afirmou Anilton, dizendo estar muito contente perto da família.

Eficiência logística

Cerca de 70 veículos são carregados por dia para atender, em média, 2,4 mil escolas na cidade de São Paulo, além de mais 800 nos municípios de Guarulhos, Mogi das Cruzes, Jundiaí, Taubaté e Santo André. Para que a estrutura de entregas seja eficiente, os cooperados montaram um sistema logístico. “No início, trabalhamos com uma empresa, mas depois percebemos que era possível ‘caminhar com as próprias pernas’. Contratamos dois rapazes formados em logística para fazer o sistema de roteirização, terceirizamos os veículos de rua e, hoje, somos referência na distribuição”, afirmou Sérgio Domingues de Ramos, técnico responsável pela logística. Todas as cooperativas (6) e associações (2) que integram a central foram comtempladas com dezenas de itens, entre máquinas, equipamentos e veículos viabilizados pelo Projeto Microbacias II – Acesso ao Mercado e transferiram seus equipamentos para Santo André, na Coopercentral VR.

       

Com a eficiência logística, as escolas recebem as bananas nos primeiros dias da semana. “A banana faz parte do nosso cotidiano e as crianças apreciam a fruta. Elas começam desde o berçário, experimentando a banana amassada. Quando crescem, elaboram receitas em casa com a família e, depois, contam como fizeram a receita”, disse Valéria Basti, diretora do Centro de Educação Infantil (CEI) Jabaquara. A pequena Luiza Helena frequenta o CEI Jabaquara e não abre mão de comer a banana que é fornecida pela Coopercentral VR. “Adoro comer banana e sei que ela é importante para a alimentação”, disse a garota de quatro anos de idade.

Novos mercados

Com a fruta sendo entregue nas escolas nos três primeiros dias da semana, os cooperados encontraram na ociosidade dos dias sem entrega institucional a oportunidade para abrir novos mercados, segundo explica Isnaldo Lima da Costa Júnior, coordenador de vendas da Coopercentral VR. “Nas férias escolares o produtor não conseguia escoar o produto, pois a venda era concentrada institucionalmente por conta do PNAE. A partir disso surgiu a ideia de desenvolver esse mercado, que chamamos de convencional", afirmou Isnaldo, dizendo que, atualmente, conta com 20 clientes, entre mercados sacolões e varejões. “Nossa expectativa é terminar 2018 com 50 clientes, com o objetivo de permitir ao produtor mais acesso ao mercado”, concluiu.

Guilherme Arantes, gerente de um varejão que é cliente da Coopercentral VR, afirmou que a banana fornecida é de ótima qualidade. “Houve até crescimento nas vendas após iniciarmos a comercialização da banana da Coopercentral VR. Os clientes elogiam a fruta e sempre voltam para comprar mais”, disse o gerente.

Segredo do sucesso

De acordo com um dos idealizadores da Coopercentral VR, o segredo de uma cooperativa de sucesso passa pela quebra de paradigmas e conceitos do senso comum. “Desenvolvemos um cooperativismo que é específico para a nossa região, tomando como perspectiva a solidariedade. Existe a necessidade de haver a mescla da visão empresarial com a solidariedade”, disse Gilberto Ota. “Algumas pessoas gostam de dizer ‘amigos são amigos, os negócios são à parte’. Para nós, a amizade é a consolidação do nosso negócio”, concluiu.

João Brunelli Júnior, coordenador da CATI, afirmou que os cooperados da Coopercentral VR tiveram a maturidade para entender que, em conjunto, os agricultores familiares conseguiriam atingir mais mercado. “Foi um enorme avanço e um ‘case’ de sucesso de serve como referência”, apontou Brunelli.

Mais informações: (19) 3743-3870 ou 3743-3859

jornalismo@cati.sp.gov.br